A Última Casa: Será que uma boa atuação salva um roteiro mediano?

A Última Casa: Será que uma boa atuação salva um roteiro mediano?

Para alguém que não gosta de terror e suspense, é muito difícil encontrar motivação para assistir a filmes desse estilo, porém a presença de Wagner Moura e Greta Lee no elenco principal foi o incentivo necessário para dar o play em A Última Casa.

O novo longa da Netflix acompanha a família Delgado, formada por Jason (Moura), Ann (Lee) e os jovens Graham (Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung). Vivendo no subúrbio de Seattle e enterrados em várias dívidas e problemas, os quatro veem suas vidas mudarem completamente de uma hora para a outra quando, após uma chuva forte assolar onde moram, todos se tornam reféns das próprias moradias, incapazes de abrir qualquer porta ou janela. Presos e confusos, todos começam a se perguntar o que realmente aconteceu, incapazes de se comunicar com as autoridades e improvisando para conversarem o máximo possível com seus vizinhos.

Onde o filme acerta e o roteiro perde o rumo

A trama começa bem, com um bom thriller claustrofóbico, mostrando como a casa deixou de ser uma proteção e se tornou uma prisão. A dinâmica inicial entre os personagens também é interessante, por conta da organização para racionar comida e água, manter a boa convivência com a divisão de tarefas e se entreter durante o tempo ocioso com exercícios físicos e as mídias físicas disponíveis no local.

Se tivessem conseguido manter esse ritmo, teríamos mais um bom suspense, seguindo os passos de Um Lugar Silencioso, porém, infelizmente, não foi o que aconteceu. O roteiro de Matthew Robinson se mostra inseguro da história que introduziu. Antes, a ameaça que os assombrava era o gatilho para abordar as questões individuais e coletivas dos personagens e criticar como utilizamos o nosso tempo; porém, a partir do segundo ato, vemos várias regras sendo quebradas ou moldadas sem que haja um motivo plausível para isso.

A obra de Louis Leterrier brinca com o imaginário do espectador quando não revela inicialmente se a ameaça é um monstro real, espiritual (a autora agradece) ou ficção científica cerebral. Entretanto, o impacto da revelação é jogado fora, pois, mesmo com o roteiro deixando pistas para descobrirmos o que é durante a história, quando a revelação finalmente acontece, ela não faz mais diferença.

Além disso, o roteiro perde a oportunidade de se aprofundar em temas que estavam ali na frente o tempo todo, como o enfraquecimento das relações familiares, as paranoias causadas pelo isolamento e a claustrofobia. Os desejos individuais de cada um também se sobrepõem ao bem-estar de todos. E o principal: a casa é apenas um imóvel, quando poderia ter se tornado de fato um personagem, como o som se transforma em personagem em “O Som do Silêncio” e as paisagens e ambientes se tornam muito importantes em “Sonhos de Trem”.

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A atuação e a mídia física sendo os destaques

Será necessário marcar uma consulta urgente com um ortopedista para Wagner Moura e Greta Lee, já que a atuação de ambos carregou o filme nas costas do começo ao fim. Moura interpreta um pai e esposo que quer salvar a família a todo custo e acaba perdendo o rumo em alguns momentos, enquanto Lee vive a mãe e esposa que organiza e equilibra tudo da forma mais racional possível, sem perder o carinho e a proximidade com os filhos. Eles fazem tudo o que podem para melhorar os diálogos e a trama, que enfraquece aos poucos.

Outro ponto interessante foi como é discretamente mostrada a importância da mídia física para mantermos a lucidez em momentos extremos. Os personagens se mantiveram apegados a jogos de tabuleiro, músicas no piano, livros, brincadeiras e, enquanto havia energia elétrica, DVDs e toca-discos. Quando a internet some é que vemos como o mundo on-line não existe.

Vale a pena assistir “A Última Casa”?

O filme não está tão bom quanto foi prometido, porém vale a pena assisti-lo antes de cair em uma espiral de críticas negativas que estão detonando o filme na internet. “A Última Casa” poderia ser muito melhor do que foi, porém não é o desastre que está sendo pregado. Da mesma forma que outros filmes de terror estão sendo superestimados, como “A Obsessão”, que entrega uma crítica muito interessante e, por isso, está recebendo louros de inúmeros espectadores.

“A Última Casa” está disponível no catálogo da Netflix.

Camila Couto

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