O Agente Secreto: Mistura política, cultura nordestina e emoção na corrida pelo Oscar

O Agente Secreto: Mistura política, cultura nordestina e emoção na corrida pelo Oscar

O Agente Secreto é o representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar e não é à toa. O novo filme de Kleber Mendonça Filho consegue reinventar como se conta uma história, ele mostra as cicatrizes da ditadura sem falar em nenhum momento as palavras ditadura ou regime militar. O Blog Camilacouto.com.br teve a oportunidade de participar da cabine, coletiva de imprensa e premier na Mostra de São Paulo, e você pode conferir agora o que a autora pensa sobre o filme.

A obra é contextualizada no Brasil do ano de 1977 e acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia de pouco mais de 40 anos, que está em rota de fuga. Ele chega ao Recife durante a semana do Carnaval, na esperança de reencontrar o filho e ficar em um lugar seguro, mas logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que ele procura. 

Mesmo Kleber não tendo dito as palavras, toda a estética, clima e atuação mostra a seriedade do tema, sem tornar o assunto em algo amenizado. Para se referir a época, foi utilizada várias vezes a expressão “pirraça” para descrever alguns aspectos da ditadura militar brasileira, que ocorreu de 1964 a 1985, como o apagamento da memória e a censura tanto socialmente quanto cultural. 

A perna cabeluda é um elemento criativo que enriquece culturalmente a obra, porém limita a compreensão da mesma quando pensamos em nível internacional. Apesar dessa possível limitação, o resultado final revela uma proposta inteligente e visualmente impactante, reforçando a ideia de que tudo é regional.  

o agente secreto kleber mendonça filho wagner moura mostra de sao paulo oscar

A obra vem valorizando a cultura nordestina desde a sua estreia que começou em Recife e sem perceber percorreu os festivais nacionais (e internacionais) deixando o sudeste brasileiro por último, ato que reflete a exclusão que o sudeste sempre fez contra o restante do país no audiovisual por muitos anos.“Como eu queria que o filme fosse exibido pela primeiríssima vez no Brasil, que fosse no Recife, então o Recife terminou sendo a primeira exibição no país. Brasília veio depois por causa do Festival de Brasília. E, naturalmente, o Rio e São Paulo vieram por causa do Festival do Rio e da Mostra Internacional de São Paulo. E aí terminou acontecendo uma coisa interessante que, de fato, foi invertida a ordem.”  

Esse elemento não significa que é algo ruim ou que embarriga a narrativa, ao contrário, valoriza a cultura do pernambucana e enriquece a trama. Seria possível contar a história sem essa subtrama? Sim! Mas os espectadores perderiam muito ao não conhecer uma lenda interessante e pouquíssima citada pelo Brasil, além de ter sido bem encaixada dentro da história. 

Um personagem que chama a atenção na trama é Sebastiana, muito bem interpretada por Tânia Maria, que consegue roubar a atenção em todas as cenas que está e como ela mesmo disse, ela está sendo ela mesma. “Eu sou do jeito que está no filme. Eu gosto de acolher, eu gosto de brigar e reclamar. Quando não faço alguma coisa direita, eu reclamo.

Eu sou daquele jeito. Minha família foi assistir Natal e quando eu saí, elas falaram ‘ela é desse jeito.’ O que está no filme, eu sou.” 

Todo o elenco está brilhando de uma forma única, desde os coadjuvantes até o protagonista, ninguém passa despercebido. Wagner Moura como Marcelo é um talento à parte! Ele consegue demonstrar o suspense da perseguição desde pequenos detalhes no olhar até cenas de fuga em si. Ele acompanha o tom que o filme quer dar à cena, já emocionante com seu filho, Fernando, seja em um momento descontraído ou com o medo cutucando a nuca. 

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A montagem soma de forma positiva ao ritmo do roteiro, o que no começo pode ser um pouco confuso ou até “embaralhado”, resulta em uma história muito bem contada, trazendo para os dias atuais por meio de uma personagem que podemos considerar a narradora. 

Outro aspecto que é preciso citar é a trilha sonora. O sincero retrato da cultura brasileira com nomes como Lula Côrtes & Zé Ramalho, Angela Maria, Waldick Soriano, Orquestra Nelson Ferreira e a Banda de Pífanos de Caruaru, misturando o brega clássico, frevo, forró e raízes profundas da cultura popular. A busca pelas canções ideais para a trama foi ressaltada pelo ator Gabriel Leone e explicada pelo diretor. “Então foi um processo muito longo. Teve uma tarde que eu fui para a loja de discos Passa Disco, que infelizmente fechou já no Recife, e eu voltei com quatro discos muito raros, e três forneceram quatro músicas para o filme. Então, uma ida num sábado à tarde para uma loja de discos forneceu quatro músicas muito desconhecidas para mim e que estão no filme. É muito tempo que você precisa amadurecer para entender se a música vai estar no seu filme, que é uma decisão muito difícil de chegar.”

O filme tem chances reais de trilhar o mesmo caminho de Ainda Estou Aqui de Walter Salles que ganhou o Oscar na categoria Melhor Filme Internacional no ano passado. principalmente com o caminho que está seguindo nos festivais internacionais sendo Vencedor do prêmio de melhor direção, de melhor ator, para Wagner Moura, e do prêmio da crítica no Festival de Cannes.

O Agente Secreto estreia dia 6 de novembro nos cinemas de todo o Brasil.

Camila Couto

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