Um Pai Para Lily: Preenche ausências sentimentais sem amenizar traumas
“Um Pai Para Lily” é emocionante e traz reflexões sobre relações paternas de várias formas, onde podemos acompanhar subtemas como dependência emocional e carência, chantagem emocional e ausência parental.
O filme apresenta a jovem Lily (Barbie Ferreira) que se decepciona mais a cada dia buscando a validação e atenção do seu pai. Por conta do egocentrismo dele, os dois se afastam e Lily se vê sozinha e perdida, mas ao procurar por seu pai ausente no Facebook, ela acidentalmente adiciona um homem com o mesmo nome: Bob Trevino (John Leguizamo). Esse bondoso e gentil rapaz torna-se, então, a figura paterna que Lily nunca teve, conseguindo encontrar um no outro a dose de carinho e afeto que faltava.
A história é inspirada na vida da diretora e roteirista do filme, Tracie Laymon, o que deixa a trama ainda mais dramática. Outro fator que influenciou para execução da obra foi a vivência da atriz, Barbie Ferreira, no tema. Ela foi criada nos Estados Unidos apenas pela mãe brasileira e citou em uma entrevista ao F5 que essa ausência da vida real a ajudou a entender um pouco do universo de Lily, sua personagem. “Eu não cresci com uma figura paterna. Meu pai foi embora. Ele não está na minha vida desde que eu tinha 7 anos”
A atriz Barbie Ferreira, 28 anos, mostrou com muita emoção e intensidade seu potencial, o que valorizou ainda mais a obra. Ela ficou conhecida pela Kat Hernandez de “Euphoria”, da HBO, a atriz diz que se interessou por “Um Pai Para Lily” por ser algo completamente diferente do que ela já tinha feito no audiovisual. “Quando li o roteiro, fiquei imediatamente impressionada com o quão doce e machucada ela (Lily) era, e pela forma como ela expressava isso”, cita durante a entrevista para o F5.

No começo do contato entre os personagens Lily e Bob, o público pode sentir que a aproximação não foi muito bem pensada, porém de analisarmos as vivências deles de forma individual é possível visualizar o vazio emocionais profundos que eles carregam dentro dos corações, por isso a aproximação rápida pode ser justificada de uma forma mais natural, preenchendo ausências sentimentais sem substituir traumas gerados pelo pai biológico.
Um ponto que enfraquece a mensagem do filme foi na forma que apresenta a psicoterapia na vida das pessoas que precisam, como é o caso de Lily. Em uma cena em que a protagonista está na terapia compartilhando suas dores mais íntimas e a terapeuta chora inconsolável por conta do que a personagem está contando. Essa situação aparenta ter sido pensada para humanizar a personagem da terapeuta, porém reforça a visão de que existem dores “grandes demais” até para quem foi treinado para escutá-las, sendo que os profissionais possuem anos de estudo para poder acolher os pacientes da melhor forma possível.
A trama não é o único pilar que sustenta a obra. As técnicas de filmagem fizeram toda a diferença para inserir o espectador nesse vínculo paterno. O enquadramento com zoom priorizando rostos e olhares, nos traz para junto dos acontecimentos. A partir do momento que a protagonista encontra seu “novo” pai, a fotografia se torna quente, terrosa e com tons suaves que reforçam o senso de proximidade emocional e o espaço doméstico como se chama-se de “lar”. A montagem reforça essa intimidade, favorecendo a passagem do tempo sem precisar destacá-la. A trilha sonora é muito sutil, evita manipulação emocional e deixa que os acontecimentos falem por si nos deixando sentir cada escolha de Lily.
Tudo isso, são detalhes que preenchem pequenas ausências dentro do drama, seja pela história, pela imagem, pelo som e pela composição.
